PROFESSOR REFLETINDO NA AÇÃO SOBRE AÇÃO
Raimundo J. Barbosa Brandão
Etmologicamente a origem da palavra “Professor” tem sentido polissêmico,
tanto quanto a denotação do termo na atualidade. Do latim, tem-se “profiteri’, com o mesmo significado de “por fateri”, que significa confessar;
da família “magister” (COVARRUBIAS,
1994); originário do termo “docens”,
que deriva de “docere”, que significa
ensinar.
No processo de ensinar, muitas vezes o mediador se vê diante de
situações que precisam de uma decisão urgente e decidir diante de incertezas é
uma missão muitas vezes complexa para o professor, que frequentemente não
participa das elaborações dos currículos e das políticas educacionais.
Para minimizar esta complexidade é fundamental que se tenha professores
bem preparados e compromissados com o processo educativo.
Nesta perspectiva concorda-se com Borralho (1997) que não há ensino de
qualidade, nem reforma educativa de qualidade e inovação pedagógica sem uma formação
adequada para o professor.
Diante destas questões é urgente refletir na formação docente a respeito
de novas maneiras de se apoderar e usar os diversos saberes essências às
práticas educativas. A reflexão na e sobre a prática permite que o professor
reavalie a sua atuação de desta forma, reinventa e assume papel central na
ação. Por tanto é fundamental mudança de atitude, maneira de pensar e agir, bem
como a forma de compreender e explicar a construção histórica e social dos
objetos de aprendizagem.
Para
Dewey (1959, 1979) apud Dorigon e Romanowski (2008, p.11), o pensamento reflexivo tem uma função
instrumental, origina-se no confronto com situações problemáticas, e sua
finalidade é prover o professor de meios mais adequados de comportamento para
enfrentar essas situações. Quando surge uma situação que contenha uma
dificuldade ou perplexidade, podemos contorná-la ou enfrentá-la e assim começamos a pensar e refletir, forçosamente,
começamos a observar para analisarmos as condições.
Compreender os problemas relativos à formação de
professor reflexivo, é importante a leitura de pesquisadores como Zeichner
(1993, 1997, 2008), Shulman (1986, 1987) na abordagem do conhecimento
pedagógico do conteúdo, Perrenoud (2000) discorrendo sobre as competências que
os professores precisam desenvolver para ensina e Schön (1983, 1992, 2000)
refletindo na ação e sobre a ação.
Para Shulman (1989, p. 19) “reflexão é um processo pelo qual o professor
aprende a experiência”, é a prática do professor quando (re)constrói seus
saberes, crenças, valores e ações.
Donald Schön foi um dos primeiros
pesquisadores a criticar o modelo da racionalidade técnica e iniciar estudos
sobre formação de professor reflexivo (1983, 1987, 1997 e 2000), a importância
do professor refletir sobre o que ele está fazendo como parte do processo de
sua prática pedagógica serviu para despertar o interesse de outros
investigadores sobre o tema.
Nos trabalhos de Schön
(1983), o que Dewey (1933, 1980) chamou de reflexão, ele chama de conhecimento
na ação, que consiste numa atividade de rotina, sem a necessidade de um
pensamento consciente e consistente. Para este autor, a reflexão ocorre de três
modos diferentes: reflexão na ação, reflexão sobre a ação. Com relação ao
aluno, o professor reflete sobre as ações dos alunos dando-lhes possibilidades
de testar hipóteses que elaborou sobre a forma de pensamento do aluno.
Reflexão na ação – significa pensar no que se faz enquanto se está fazendo. É um momento
de atualização, renovação e (re)construção de conhecimentos. A reflexão na
ação, segundo Schön (1983), ajuda na conclusão de uma tarefa e a experimentação
em curso permite obter uma resposta correta. Schön apresenta alguns conceitos
importantes para a reflexão na ação:
Conhecimento tácito – é conhecimento do individuo quando está fazendo alguma coisa (Schön,
1983), é algo automático e intuitivo. O saber é normalmente tácito quando
estamos lidando com as coisas. Por exemplo, quando se aprende a calcular o
coeficiente de correlação entre duas variáveis, teve que pensar sobre o que
estava fazendo.
Encontra-se em Nonaka
& Takeuchi (2001) que a ideia de conhecimento tácito foi trabalhada por
Michael Polanyi (1966), após refletir sobre a frase “nós podemos saber mais do
que podemos dizer”
Para Polanyi (1972), as línguas
oferecem a vantagem da comunicação verbal, mas essa articulação não torna
necessariamente o indivíduo mais informado. Aqui se pode compreender que as
possíveis incoerências ou omissão do pensamento comunicado, através da
linguagem, oferecem apenas segmentos da informação, que podem ser manipuladas
ou tendenciosas. Na concepção desse pesquisador, o conhecimento tácito acontece
por meios de experimentos, pela experiência de vida, do conhecimento pessoal de
cada indivíduo.
Predomina na concepção de ciências (POLANYI, 1969), a disjunção da subjetividade e da objetividade, e isso
elimina o seu caráter pessoal e suas apreciações. Isso leva à conclusão que o
conhecimento tácito ultrapassa a dicotomia e conduz o contato íntimo entre
ciência e indivíduo.
Saber
em ação – o saber em ação
é um bom indicador para o conhecimento que o indivíduo possui no seu interior
quando ele realiza sua atividade de forma natural. É o chamado saber prático
pessoal.
Refletindo na ação – esta atitude ocorre quando o indivíduo é capaz de fazer a avaliação e
efetuar modificações no ambiente do evento. Para quem tem habilidade em
trabalhar em situações de incerteza ou dúvida é uma ação relativamente fácil,
porém àqueles menos habilidosos o desfio é maior.
Schön (1983) esclarece que as pessoas que passam muito tempo fazendo a
mesma atividade, com as mesmas estratégias, perdem oportunidades importantes em
pensar no que está fazendo, pois são atraídos por certos tipos de erros padrões
tornando-se um pouco difícil para correção.
Para Caine & Caine (1997), a
forma pela qual uma pessoa faz reflexão sobre o que faz está intimamente
associada à forma que se percebe o mundo e os modelos em que se encontra
fundamentado estas percepções.
Incerteza
– para Morin (2003),
conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas está
falando com a incerteza.
A incerteza parece ser um dos mais relevantes elementos que constitui a
cultura contemporânea, se encontra no centro das discussões científicas e, é
fundamental nos processos de mudanças, uma vez que tem papel decisivo na
interpretação da realidade.
Acredita-se que este elemento tenha uma grande utilidade na vida dos
profissionais em geral, incluindo os professores, pois a ciência já não parece
ser capaz (HARGREAVES, 1998) de mostrar como o indivíduo vive com alguma
certeza ou estabilidade. Na sociedade atual, a dúvida se encontra em toda
parte, e a única certeza que se tem é que o amanhã será muito diferente do dia
de hoje, pois as “supostas certezas científicas” são questionadas a todo
instante e, não tem “credibilidade absoluta”. Isto leva o sujeito a constante
reflexão em suas ações e conduzem aos processos de mudanças.
Reflexão sobre a ação – ao
final da execução de uma atividade de trabalho ou de ensino, convém a
realização de uma avaliação para se detectar avanços ou retrocessos.
Para o docente, é muito importante fazer reflexões sobre o que foi feito
durante uma ação pedagógica, pois neste momento de pensar “nós refletimos sobre
a ação, pensando o que temos feito, a fim de descobrir como o nosso
conhecimento na ação pode ter contribuído para um resultado inesperado”.
(SCHÖN, 1983, p. 26).
Para Schön (1983), a capacidade de refletir na ação e sobre a ação,
tornou-se uma característica importante dos programas de formação profissional
em muitas disciplinas, isto é visto como um papel importante no início da
profissão docente.
REFRÊNCIAS
BORRALHO, A. O
ensino da resolução de problemas de Matemática por parte de futuros
professores: Relações com a sua formação inicial. In: FERNANDES, D.; LESTER
Jr., F.; BORALHO, A.; VALE, I. (Coords.) Resolução de Problemas na formação
inicial de professores de Matemática: Múltiplos contextos e perspectivas. Grupo
de investigação em Resolução de Problemas, Aveiro, 1997, p. 129-157.
DEWEY, J. Como
Pensamos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.
DE WEY, J. Democracia
e Educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979.
DORIGON, Thaisa
Camargo.; ROMANOWSKI , Joana Paulin. A
reflexão em Dewey e Schön. Revista Intersaberes. Curitiba, ano 3, n. 5,
p. 8 - 22, jan/ 2008.
CAINE, G.
& CAINE, R. Unleashing the Power
of Perceptual Change. Alexandria: Association for Supervision and
Curriculum Development. 1997.
COVARRUBIAS, S. de
(1611): Tesoro de o lengua castellana
o española, Madrid. Maldonado, F. C. R. (o.), revisada por M. Camarero.
Madrid, Castalia. 1994.
DEWEY, J. A Arte como Experiência. Trad. M.O.R.P.
Leme. São Paulo: Abril Cultural,1980.
D EWEY, J. A Filosofia em Reconstrução. Trad. E.M.
Rocha. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958.
DEWEY, J. Como
pensamos. 3. o. São Paulo: Editora Nacional, 1959.
DEWEY, J. How we think: A restatement of the relation
of reflective thinking to the educative process. Lexington, MA:
Health.1933.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Repensar a
reforma/reformar o pensamento. 8ª ed. Rio de Janeiro. Tradução Eloá Jacobina.
Bertrand Brasil, 2003.
NONAKA, I. & NISHIGUCHI, T. (Eds.). Knowledge emergence: Social, technical, and
evolutionary dimensions of knowledge creation. New York: Oxford University Press, 2001.
POLANYI, M.
the study of Man. Chicago: The University of Chicago Press, 1972.
SCHÖN, D.
Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a
aprendizagem. Porto Alegre, RS: ArtMed, 2000.
SCHÖN,
D.Formar professores como profissionais reflexivos. In: NÓVOA, A. Os
professores e sua formação. Lisboa, Portugal: Dom Quixote, 1992.
SCHÖN, D.A. The reflective practitioner . New York: Basic Books, 1983.
SCHÖN, D.A..Formar professores como profissionais reflexivos. In NÓVOA,
António (coord.). Os professores e a sua formação . Lisboa: Dom Quixote, 1992,
p. 77-91. SCHÖN, D.A. Educating the reflective practitioner . San Francisco:
Jossey-Bass, 1987.
SHULMAN, Lee. “Toward a pedagogy of substance.” AAHE Bulletin
(American Association of Higher Education) June 1989.
SHULMAN, Lee. Knowledge and teaching: foundations of the new reform.
Harvard Educational Review. 1987.
SHULMAN, Lee. Those who understand: knowledge growth in teaching. Educational Research, n. 15 .1986.
ZEICHNER ,Kenneth
M. Uma análise crítica sobre a “Reflexão” como conceito estruturante na
formação docente.Educ. Soc.,
Campinas, vol. 29, n. 103, p. 535-554, maio/ago. 2008.
ZEICHNER, K. El maestro como profesional reflexivo.
Cuadernos de pedagogía, v. 220. 1993.
ZEICHNER, K., Novos
Caminhos para o Practicum: Uma Perspectiva para os Anos 90. In: Os
Professores e a sua Formação. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
Nenhum comentário:
Postar um comentário